terça-feira, 3 de dezembro de 2013

COMO MATAR II

- ESPERO ESTAR bem cumprindo tuas ordens, senhor!
- Pois eu já não espero nada mais que tua obrigação.
- Sou-lhe muito grato pelo que tenho e pelo que me dá.
- Errado, pulha! Eu gasto vinte vezes mais que tudo o que você já ganhou na tua vida, em uma semana, e sempre estou querendo mais! Deixe de ter esse pensamento medíocre de gratidão. Ele não te levará a nada.
- Parece que está tentando me jogar contra o senhor mesmo!
- E estou. Olha, miserável, – apontando-lhe o indicador nas fuças – atire em mim. Pegue este estilingue de cuspes, que você ousa em chamar de arma, e atire em mim. No meu rosto.
- Mas... Não posso.
- Atire, desgraçado! Estou lhe dando uma chance.
                O pobre diacho pensou duas longas vezes antes de pôr suas trêmulas mãos na arma. Suava frio. Sabia que se matasse Dom Emiliano morreria pelas mãos de seus capangas; entretanto, se ele não o matasse, morreria do mesmo jeito, pelas mãos dos mesmos fantoches. Era um tiro e uma queda. Estava na escolha de Villares, quem cairia primeiro.
- Esta é a hora em que morro, senhor?
- Esta é a hora em que aprende que não há espaço para traíras e pena neste mundo, Villa. –disse, calmamente - Há muito deveria ter entendido isto.
- Isso foi um sim?
- Chega de perguntas, filho duma puta! Honre esse saco que você tem. Ou tinha.
                Dom Emiliano, grande esgrimista e um dos maiores atiradores de Sísbora, e de toda a margem do gigantesco Rio Fortuna, em cheio, enterrou uma bala entre as pernas do rapaz, que, de súbito e com um gemido de dor, caiu, se contorcendo.
- Arrrrr! Que... Que te fiz, seu desgraçado?
- Ah, até que enfim, a pergunta certa! Pena que é tarde demais, já está aí, todo fodido. Além de traidor, você é burro, sabia? – abaixou-se, junto ao rosto do ferido. E agora, frutinha. Hahaha! Você é a pessoa mais incompetente que já trabalhou pra mim. Não sei de que esgoto te tiraram, seu merda, nem como eu pude aceita-lo aqui...
- Na verdade, suponho que o senhor saiba sim.
- Cala a porcaria dessa boca. – atirou na perna de Villa. Sim, eu sei; matei-a hoje, pela manhã.
- Não... Arrrr...
- Aquela puta me enganou direitinho. Disse-me que era tua irmã, e me pediu para colocá-lo no bando. Cai feito patinho.
- Não a chame assim. Eu a amava. – disse, conseguindo ficar sobre os cotovelos.
- Ela se deitava com todo o bando, seu corno! Fiz-lhe foi um favor à tua honra, matando a ela e a você.
- Eu sempre soube que ela era uma vadia. O corno, aqui, não sou eu. Arrrr...
                O chefe, efervescido de raiva, deu um chute de bico na cara do coitado sem bolas, afundando-lhe os dentes e o nariz.
- Corno, mas vivo.
                Mansamente, o corno vivo ia acendendo um charuto e saindo da sala, esquecendo-se da mais importante regra de sua organização: nunca dê as costas ao inimigo, mesmo que este esteja morto. Um tiro certeiro, transpassou-lhe a nuca. Morreu antes; morreu perdedor.

                Tanto sangue jorrado, por causa de um par de peitos, naquela sala escura. Um divã, uma mesa de centro, quatro prateleiras de livros, e dois cadáveres, agora, enfeitavam-na da maneira mais macabra possível.

               

Nenhum comentário:

Postar um comentário