terça-feira, 19 de novembro de 2013

ESTRANGEIRO DO MUNDO REAL III

Parado, fitava a lua, sobre os telhados das casas. A luz deixava tudo claro, e eu gostava do escuro da noite. Entretanto, não me decepcionei, não. É até cômico tentar fugir de algo que nunca sumirá de ti. Cômico não é bem a palavra, mas não estou com imaginação para palavra mais encaixável.
Os telhados. Eles eram diferentes uns dos outros, sabe? Eu nunca tinha reparado nisso. Por certo, eu nunca reparei nas coisas que não vejo. O que é errado. Só situar o telhado por cima de nós, que não o olhamos direito. Busquei mudar ‘my point of view’, como dizem os ingleses. Não, eu não falo inglês. Não fluentemente. Não morro de fome. Give me something to eat, please!
Por que será que falei de fome? Acho que não como há dias, mas não tenho fome. Fico só com vontade de pensar e de olhar para a lua. Acho que sou ‘luívoro’. Eu e minhas bobagens. O manicômio não me ensinou nada mesmo. Só a pensar. Eu não sabia pensar (e, em geral, as pessoas não o sabem), agora eu sei.
Juro que antes eu pensava na Filosofia, na Ciência, na Política. Baboseiras! Hoje eu penso nos sentidos, nos sonhos, nas mulheres e na lua. Essa lua cheia de solidão. Pronta para chorar suas mágoas nos ombros de qualquer poeta fajuto, por aí.
Estou deprimido. Não muito. Acho que as ruas estão mais. São o nosso caminho, mas não o nosso holofote. E é brincando cá com meus botões lunáticos, que vejo que nada é mais triste que a rua, rua vazia. Nenhuma mulher de saia. Não sei, mas ela está bem taciturna.
Volto a olhar para a lua, por cima das telhas. Ela pisca para mim. Já sei que é minha amiga. O sentimento de ser só, num vácuo cheio de nada, é mútuo.
[...]

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